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29.8.06

OLHA O QUE EU ACHEI:







Copiado do Gravatá.


Ih, sumiu!

Notado por Francisca - sempre a última a saber.





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TORPEDO
A única coisa boa de quando você viaja e eu durmo aqui sozinha é poder vestir aquele pijama velho que tenho vergonha de usar na sua frente.

Escrito por alguém que esqueceu o próprio nome e não acerta as letras no celular.

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28.8.06

GENTE BOA
Deu hoje no Joaquim: moradores do Rio escolhem as sete maravilhas da cidade - não vale o Corcovado, considerado hors-concours.
Abaixo, mais quatro personalidades expõem suas listas:

1. Maracanã
2. Final de tarde no Leblon
3. Final de tarde na janela da minha casa, em dúvida se olho pra Lagoa ou pro Cristo
4. Lapa, tanto na noitada como de dia, pelos antiquários
5. Santa Teresa
6. Jardim Botânico
7. Avenida Rio Branco ao meio dia

Lembrado por Rogério, sociólogo desempregado


1. Sair do Rebouças e desembocar na Lagoa
2. Pôr do sol na altura da placa "Sorria você está na Barra", depois de duas horas de engarrafamento
3. Boitatá lotado, às 8 da manhã, tomando cerveja
4. Ficar o dia inteiro salgada e marcar o chope da noite na praia
5. Do Pão de Açúcar, ver acender as luzes da cidade
6. Pastel de feijão do Mineiro
7. Botecos em geral

Enumerado por Luciana - modelo e manequim, pretende ser atriz.


1. Parque do Flamengo, o lugar ideal para se ler jornal
2. Café do segundo andar do Letras & Expressões de Ipanema, com uma Vogue América nas mãos
3. Vista do elevado do Joá às 3 da tarde num dia de sol
4. Praça Paris no início da noite ou de manhã bem cedo
5. Praia da Reserva sem nenhum vendedor de biscoito Globo
6. O desembarque do Santos Dummont
7. A salada caprese do Alessandro e Frederico depois da praia, sem fila de espera.

Ditado por Rob Machado, surfista


1. O samba de roda
2. Encontrar amigos sem marcar
3. O pé sujo
4. Conhecer os garçons
5. A Lagoa
6. Estar com a minha família
7. A crônica

Enviado por Rosana, autora e compositora



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CONTROLE REMOTO
Ainda bem que começou esse negócio de votação nacional, pela internet ou via torpedo: mesmo que nenhum ator do júri tenha tido peito de não dar nota 10 pra Suzana Vieira, o povo não perdoou e tascou um 6.8 pra ela, que deixou o programa ontem. Já foi tarde, estava me deixando muito constrangida, que feio.

E o Marcelo Madureira, hem? Tudo bem querer fazer piada, bancar o rabugento e dar nota baixa pra todo mundo. Mas por que, então, beneficiar Débora Secco com o único 6? Os competidores levam a brincadeira a sério, o telespectador idem. Um pouquinho de coerência cairia bem.

Sim, eu acompanho a Dança no Gelo. E, principalmente, o America's Next Top Model. Pena não acompanhar O Aprendiz e, portanto, ter perdido um dos candidatos, enquanto presidente da própria vida, demitir o Justos.

Não, eu não votei na Dança do Gelo nem por torpedo nem pela internet. Juro.

Enviado por Patrícia K.

Atualização:
Claro, tem a demissão do Justus no YouTube.


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25.8.06

SEPARAÇÕES I, II, III e IV
A gente brigava 24 horas por dia pelos motivos mais banais. É como as pessoas falam: o casamento estraga o namoro. Estraga mesmo! Por favor, não se casem. Mantenham o namoro, a liberdade, o direito a ter uma pia limpa... Não abdiquem ao encanto de encontrar com ele já maquiada e penteada. Mantenham. Depois de descobrir o quão nocivo pode ser um casamento, passei a entender também como alguns casais se separam em menos de um ano. Ou como um casal pode namorar cinco, seis anos e se separar depois de dez meses de casado - é fácil.

Aconselhado por Melissa, 27, descrente.


As amigas ficavam perguntando, né? "Como vai a vida de casada? Como vai a vida de casada?" Eu não queria admitir, mentia, inventava que tava tudo bem, mas meu casamento estava horroroso, ia muito mal e há um bom tempo. A gente tava com baixa imunidade, tipo quando uma pessoa está fragilizada e qualquer resfriado vem e faz um estrago? Pois é, a primeira mulherzinha mais ou menos que desse em cima dele, eu tinha certeza, ele não ia pensar duas vezes antes de pular na cama com ela. O que eu não tinha percebido ainda é que comigo funcionava igual. Passou um carinha na minha frente, falou meia dúzia no meu ouvido e me apaixonei por ele. Contei que era casada, ele compreendeu, me esperou. Rapidinho separei e comecei a namorar com o outro. É mil vezes melhor agora, a gente se entende, se gosta. Final feliz, tá vendo? Às vezes uma separação é feliz.

Admitido por Regina, 32, esteticista, noiva.


O primeiro lugar que eu fui quando a gente terminou foi o salão de beleza. Escolhi um bem bacana, perguntei no balcão quem era o melhor cabeleireiro. Sentei e dei carta branca para ele fazer o que bem entendesse com meu cabelo. A bicha adorou, claro. Perguntou se podia pintar também. Eu disse pode, pode tudo, só me deixa linda, por favor, porque não posso me dar ao luxo de ficar feia numa hora dessa. Rapidinho ele lambuzou minha cabeça de tinta, sacou a tesoura, a navalha, o pente, secou, passou um finalizador e pronto: eu não tinha mais absolutamente nada a ver com quem eu era um dia antes, com meu ex, cara amarrada full time, irritadiça, cara de quem tá casada há 10 anos. Foi ótimo. Fiquei linda, nem eu me reconhecia, arrasei. Mas logo depois, não deu nem uma semana, quis voltar pro meu ex, tava me rasgando de saudade, doida pra mostrar meu cabelo novo pra ele. Só que ele disse não, ele não gostava mais de mim e disse isso com todas as letras. Eu olhava pra ele, olhava pra mim e não acreditava. Ele até falou que tinha gostado do cabelo, que tinha ficado mais leve, com jeito de menina, mas que entre a gente não rolava mais. Eu queria ele de volta, meu cabelo de volta, faria qualquer coisa, prometi não ser mais chata, não cobrar, não gritar. Mas não adiantou.

Lamentado por Lílian, 24, divorciada e muito arrependida.


Tem uma explicação pra isso com base na psicologia: a gente se apaixona por si mesma no outro. Quando a gente ama um homem, a gente se ama mais também, a gente ama a pessoa que a gente é quando está ao lado desse homem. No início, era assim entre mim e o Carlos. Mas depois mudou tudo, sempre muda. O Carlos foi a pessoa que mais me maltratou em toda minha vida. Ele dizia que eu era chata, que eu era ridícula, me xingava de escrota e daí pra baixo. Comecei a achar que eu era isso mesmo, desinteressante, gorda, eu me odiava, queria sumir do mapa. É aquilo que falei no começo: eu não gostava mais de mim do lado dele, porque ele me fazia sentir mal como esposa, como mulher - ele dizia que eu era frígida também. Aí me trancava no banheiro e falava pra mim mesma "minha mãe não me criou pra isso". Chegou um dia que não agüentei mais e larguei ele. Fui embora. Depois pedi pra minha mãe ir lá no apartamento buscar minhas coisas. Se eu fosse, ele não ia me respeitar. E acabou pra sempre. Doeu, doeu à beça, mas a gente sobrevive, né? Quem nunca pensou que ia morrer por causa de um ex? Estou sozinha agora, mas me sinto bem mais eu. Me sinto pronta pra me apaixonar por mim mesma de novo.

Explicado por Cristina, 29, mãe de Cláudio (3) e Carla (1).


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24.8.06
ALMA AO DIABO
Passava de meia-noite fria.
Eu estava à flor da pele, a três dias da menstruação - terreno fértil, quando as idéias vêm, saltitantes, em bando, metralhando meus sonhos. E eu queria, eu precisava dormir, corpo cansado, dia difícil, mas elas, as idéias, não deixavam meus olhos fecharem, elas vinham fazendo algazarra, sem consideração, afoitas que só. Fiquei pê da vida, ser acordado é algo que aborrece as pessoas, precisava tomar uma atitude, precisava dormir!

Foi aí que briguei com as idéias, xinguei mesmo, mandei pararem de me encher o saco, vão embora, me deixem.

Sei não, mas parece que elas ficaram magoadas.

Rascunhado por Renata, que não gosta de dormir sem fazer as pazes.

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19.8.06

MOTHERN

O GNT só fala de Mothern o dia inteiro, o tempo todo, sem parar, anuncia, entrevista as mães, Ju e Laura, martela na cabeça, estréia hoje, às 20h30. Descobri na Marília Gabriela que Mothern era inicialmente um blog, que gerou um livro e agora dá à luz uma série.

Abre parêntese: acho ótimo que o GNT invista em dramaturgia. Fecha.

Bem, o Mothern é esse blog aqui, onde entrei há poucos minutos pela primeira vez e li o seguinte post:

Abre mais um parêntese: Alice= Lili = filha de uma das Motherns, chamada Juliana, apelidada de Ju. Fecha.

"Barbie Girl.

Outro dia eu estava comentando com a Alice uma história acontecida com a minha estagiária e a namorada dela (aliás, ex-estagiária e atual colega de trabalho. Parabéns pela contratação, Elisa!).

A Lili estranhou:
- Ué, namorada? Ela não é menina?
Expliquei:
- É, mas tem meninas que preferem namorar outras meninas. A Elisa
namora a Mirna.

Então ela ficou pensando um pouquinho e decretou:
- Tem uma vantagem, né, mãe, de namorar outra menina...
- Qual?
- Elas podem pintar a casa delas toda de rosa!

:-)"


Comentado por Rosana, que se idetificou com a daughter.


15 ANOS - BONS TEMPOS
Quando eu tinha 15 anos, era magrinha, magrinha, tinha o cabelo comprido e usava bermuda jeans de cintura alta. De presente, ganhei uma viagem para Disney com outras cinco amigas da escola. Mais do que magra, eu era ingênua, aliás, era boba mesmo, tipo tenho-medo-de-usar-OB. Uma amiga - a melhor - ficou menstruada lá, no dia do Wet'n Wild. Resolveu usar um OB pela primeira vez. Nos reunimos no quarto, ela mostrou o absorvente, abriu a embalagem, mostrou de novo, disse que ia colocar, desejamos sorte e ela entrou no banheiro. Pouco depois saiu e disse consegui. No início, ficou andando que nem um cowboy, mas depois esqueceu. Quando voltamos do parque, vários tobogãs depois, passava da hora de tirar o negócio lá de dentro. Nos reunimos novamente, desejamos sorte e tal, ela entrou no banheiro. Pouco depois, saiu com as mãos para trás. Conseguiu? Consegui. Querem ver? E mostrou o OB usado para uma platéia impressionadíssima. Eu pelo menos nunca esqueci. E só fui usar OB aos 16.

Postado por Gisleine, que anda vendo televisão o dia inteiro, o tempo todo, sem parar.

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17.8.06

- VAI ESQUENTANDO A CAMA.

Quando ele disse isso, já estava a caminho para me encontrar. Desliguei o telefone e comecei a arrumar a casa.

Pressa.

Ajeitei as almofadas no sofá, botei a bebida pra gelar, lavei as taças, guardei os chinelos dentro do armário, estiquei os lençóis, diminuí a luz, ducha, duas camadas de xampu, gilete, creme, perfume, signal flúor. Escolhi uma calcinha nova, preta, que tinha deixado no canto do armário para uma ocasião especial. Vesti. E só.

Mandei uma mensagem: "estou ansiosa".

Faço as contas: de lá pra cá, umas seis horas, sete no máximo, antes de meia-noite ele estará aqui. Dá tempo.

Arrumado por Edith, no dia do seu segundo aniversário de casamento.

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16.8.06

ÚLTIMO ADEUS
Eu já estava de costas, mão no portão.

- Que Deus te proteja no caminho até em casa. E sempre! Que Deus te proteja sempre - diz.

Viro-me e lhe dou meu olhar mais apaixonado.

Me corrói o medo de que seja essa uma despedida de verdade.

Lacrimejo, decoro suas palavras, sua voz, seu rosto.

- Me dá um abraço - não consigo dizer.

Um dia, tomara que demore, tem que demorar, mas é inevitável, um dia será realmente o último adeus.

E eu não vou agüentar. Eu sei que não vou agüentar.


Chorado por Ana Catibiribana Cerramatutana de Firififana, que nunca cortou o cordão umbilical

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15.8.06

BREVE DESPEDIDA
Às vezes, é tão doloroso me separar de você.
Mesmo que seja por pouco tempo, mesmo que seja absolutamente necessário, mesmo que você não perceba.
Quero chorar, sinto um aperto na barriga e acho que vou morrer, quando tenho que me despedir, te deixar sozinho no quarto e pegar um copo d'água na cozinha.

Confessado por Rebeca, cujo exame de urina acusou a presença de cristais.


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13.8.06

PRIMEIRA LEMBRANÇA IV
Minha primeira lembrança do mar é em Copacabana, a princesinha. A maré estava baixa e a gente andou um tempão até a água chegar ao joelho. Eu e minha madrinha. Ela me ensinou a furar onda e eu me senti adulta.

Lembrado por Mel, 17 anos, que usa aparelho e vai prestar vestibular para Direito, Comunicação e Odontologia.

PRIMEIRA LEMBRANÇA V
Na minha primeira lembrança do mar, ele estava sujo. Como o fundo era lodo, a gente tinha que ficar boiando. Até que era divertido. O que me incomodava mesmo era sair do mar e pisar na areia. Era um escândalo, eu não queria, odiava areia. Então, coitado do meu pai, ele me levava no colo da esteira para o mar, do mar para a esteira e da esteira para a calçada. Depois, quando fiquei um pouco maior, minha mãe achou por bem parar com essa frescurada, assim não era possível. Aos poucos fui me adaptando e comecei a brincar de fazer castelos como as outras crianças. Até que uma vez, criança é fogo, uma vez um garoto cochichou com o coleguinha dele que eu tinha feito cocô na calça. Eu ouvi. E não tinha feito cocô, lógico, era a areia que tinha entrado dentro do meu biquíni, fez aquele bolo. Essa é a minha primeira lembrança de sentir uma vergonha terrível, vontade de sumir. Eu devia ter uns 4 anos.

Cochichado por Elisa, 32, advogada, que canta em um coral e acabou de parir o primeiro filho dentro de uma psicina Tony.

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11.8.06

PRIMEIRA LEMBRANÇA
Na minha primeira primeiríssima lembrança, de quando eu era bem pequena, estava num palco improvisado e todo mundo olhava pra mim. E eu olhava pra todo mundo. E me deu um branco. Minha mãe veio, falou o texto no meu ouvido e eu repeti bem alto. Era o meu aniversário.

Publicado por Chapeuzinho, que gosta de ir a pé para a casa da vovó.

PRIMEIRA LEMBRANÇA II
A primeira vez que senti inveja foi da Débora. Ela usava aparelho, tinha os olhos verdes, o cabelo liso e um grampo segurando a franja. Ela era muito sensual. Mas o pior foi quando ela ganhou a bicicleta do Bozo, no Bozo Memória.

Invejado por Letícia, que nunca realizou o sonho da garotada.

PRIMEIRA LEMBRANÇA III
Na minha primeira lembrança, a primeira de todas, eu estava em posição fetal. Ouvi meu pai dizendo "um, dois, três e" e minha irmã de cinco anos me abraçou, por cima da barriga da minha mãe. Posso provar: tenho uma foto.

Lembrado por Rosana, que não sabe se casa ou se compra uma bicicleta.

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10.8.06

OFFERTA A NOSSA SENHORA
Ó Senhora minha, ó minha mãe, eu me offereço todo a vós;e em prova da minha devoção para comvosco eu vos consagro, neste dia, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha bocca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser.
E como assim sou vosso, ó boa Mãe, guardae-me e defendei-me como cousa e propriedade vossa.

Rezado por Pequeno Príncipe, o das misses.


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8.8.06

BANDEJA DE PRATA
Gostaria de ter uma bandeja de prata, a qual tiraria da prateleira mais alta e lustraria por 15 minutos, onde intuiria meu rosto e levaria até o sofá, em que você estaria sentado, pernas cruzadas, lendo o jornal só de cuecas. Sobre a bandeja de prata, uma cafeteira italiana, um conjunto de xícara e pires pintado a ouro, mais três cubos de açúcar e um biscoito amanteigado. Ficaria eu ao seu lado, quieta, bicando minha xícara de louça branca, dentro da qual haveria leite - mas eu tentaria esconder. Escutaria suas reclamações e suas mais recentes conquistas, na esperança de depois, enfim, ouvir uma, apenas uma, breve declaração de amor. Forte, encorpada, pura. Depois do último gole, o café estaria menos amargo, meus lábios, amanteigados e meu corpo, quente. O gosto de suas palavras teria me embriagado e, pelo menos durante o intervalo entre o café escorrer garganta abaixo e seus olhos se abrirem, não haveria mais o que não consigo esquecer.

Escrito por Celina, brasileira, solteira, desempregada.

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3.8.06

SOLIDÃO CALADA
Acordo cedo e demoro três ou quatro horas para pronunciar a primeira palavra do dia. Até que o porteiro interfona. Comemoro, puxo assunto, dou bom dia, peço para ele repetir cada palavra porque não estou ouvindo bem, ah, sim, entendo, estendo o assunto, encomenda?, pode colocar no elevador, pode deixar, bota no social, muito obrigada, o senhor é muito gentil, o Reginaldo também, o Ivanildo, o seu Milton, muito obrigada hem, qualquer coisa, é só interfonar, vou estar aqui, isso, isso, bom dia, bom tarde, qualquer coisa, é só interfonar.

Para resolver esse grave problema de não ter com quem conversar e parar enfim de constranger os porteiros, encontrei uma solução, se não definitiva, paliativa: ligar a tevê. Pode ser em qualquer canal, preferencialmente em português, e pronto. A tevê faz companhia, todo mundo sabe. Fala alto, me dá uma noção das horas, não me deixa ouvir barulhos que não existem. Se escuto uma palavra-chave, até me levanto e dou papo. Sim, eu virei uma dessas senhorinhas que conversam com a televisão, choram, se emocionam, xingam, dão boa noite ao apresentador do telejornal.

Quando o dia está claro e o céu, azul, me dá gosto fazer o próprio café, tomá-lo na companhia de Ana, almoçar com Oprah, jantar com Fátima. Mas se o céu está escuro, chove pelo meu rosto - impressionante como as condições climáticas afetam meu estado de espírito. Já a tevê, faça chuva ou faça sol, está lá - impassível.

Nos primeiros dias, até que funciona. Mas depois do décimo, trigésimo, qüinquagésimo, desculpe, mas não deu. Não sou auto-suficiente, nunca me enganei nem a ninguém. Pensei: vou arranjar alguém pra dividir - e dividir aqui não se refere apenas ao apartamento mas também e especialmente aos prazeres e angústias do dia-a-dia.

Foi lindo: três horas depois, voltei pra casa com Beto.

Beto era meio calado e chegou um tanto tímido. Tratei de quebrar o gelo e coloquei ele pra dormir no meu quarto. Beto, vem pra cá, fica à vontade, tenho certeza de que essa relação vai ser tão boa pra mim quanto pra você. Ele não falou nada, mas aceitou. Isso foi só na primeira noite, para ele se ambientar. A partir de então, Beto passou a dormir na sala. E a ver TV comigo. Comer no mesmo horário que eu. Ah, Beto... Sempre faminto. Personalidade forte. Toda vez que eu chegava tarde em casa, Beto acordava. Nunca reclamou. Gostava de chamar a minha atenção, o Beto. Estava sempre de vermelho! Fui me afeiçoando a ele e acho que ele passou a gostar de mim também. Resultado: não desliguei a tevê, aí já seria demais, mas deixei no mudo.

Parecia uma maluca, parecíamos malucos, eu e Beto, Beto e eu vendo tevê sem som. Passávamos longos minutos olhando para a tela, com o pensamento longe, às vezes acontecia uma tentativa de leitura labial dos personagens do lado de lá. E ficávamos os dois, pensativos, muito íntimos, juntos, em silêncio.

Hoje, um dia depois da trágica e brutal morte de Beto - e se não falei ainda é melhor contar agora: Beto é o meu peixe beta -, fui obrigada não apenas a desativar em definitivo a opção mute da minha tevê como também e principalmente aumentar o volume, no SBT, aos berros.

Seu Milton, Ivanildo, Reginaldo, se quiserem tomar um café, estamos aí. É só interfonar.


Postado por Rosana, assassina de peixes.

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1.8.06

5x2 - AMOR EM 5 TEMPOS
- Acha que eu me mataria por você?

Perguntado por Gilles, no filme


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