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28.9.06
RECADOS Cheguei dez minutos antes das quatro, sentei naquele murinho da rampa de entrada, sabe? Passei as pernas por cima do murinho e foi instantâneo: lembrei de você. E senti tanta saudade daquele dia, tanta, vontade de entrar na máquina do tempo, há muito tempo, quando nos sentamos uma de frente para a outra, no início da nossa amizade, você lendo um conto que adorei, cheio de palavras que anotei mentalmente para olhar no dicionário depois. Volta. Por favor, volta. Me sinto um ex-amor, com dor de cotovelo, levando um bolo atrás de outro, um encontro que fica sempre para a semana seguinte e a semana seguinte nunca chega. Você me emociona e eu preciso de emoção. RECADO 2 Quando você me ajuda, volto a acreditar que é possível. Pensado por Rebeca, depois do almoço. SOBRE O PROCESSO Gosto daqui; você, não? Não desisti do blog, apesar de já estar de olho no próximo. É, não dou conta de um, mas quero ter dois. O problema é que só consigo escrever em determinados dias do mês, em que fico mais melancólica, irritada, contemplativa, zangada - ainda mais -, triste, ou seja, sensível. Aí escrevo páginas e páginas de Word, sem parar, tec tec tec, digito, leio, releio, gosto, adoro tudo, sou sensacional. Depois deleto a metade e a outra coloco aqui aos poucos, dia sim dia não, como se tivesse acabado de acabar de digitar, assim com pressa, como agora. Eu nunca disse que era uma pessoa normal. Escrito por Rosana, na TPM. RECADO 1 (CONTINUAÇÃO) Tinha uma moça loira, calça jeans, camiseta azul, câmera em punho, focando o verde, rosa e o vermelho, poesia. Era você. Escrito por Rô, no caderno, no Parque Lage. RECADO 3 Tudo aquilo que você queria fazer com ela, eu quero fazer com você. RECADO 4 Te imitei: saí de bota e bermuda. Mas isso é só o óbvio, há outros traços em você que gostaria de copiar, embora não consiga. E não me refiro a travar conversas de mais de três minutos sobre o Bob Dylan. Dado para M.A. RECADO 3 (CONTINUAÇÃO) Gostaria de ser quem você pensa quando estou eu pensando em você. Confessado por N. CARTÃO DENTRO DA BOLSINHA Que você guarde algo muito precioso aqui dentro. Reserve um espaço para a nossa amizade. Feche bem. Escrito por quem fala muito, mas às vezes, quase sempre, sente vergonha do ao vivo. COMENTE:
22.9.06
SAUDADE II Meu coração tem mania de amor, mas não é muito experiente em sentir saudade. Parece gringo, como se não conhecesse a palavra. Acostuma-se. Deixa pra lá. Substitui. Ressente-se. Aos amigos e familiares, meus queridos e afins, enfim, peço desculpas por ele, coração pequeno e imaturo, que não sabe sentir e se recusa a contar mentira. Demora meses e não horas, anos e não dias, para enfim apertar, detectar um leve estranhamento, a falta que faz, então lembra de uma cena, uma tarde, uma noite, uma da manhã, uma piscadela, uma foto amarela e quer procurar o doutor, pedir um comprimido e engolir a caixa inteira de uma só vez. Hoje acordei com saudades de mim. Escrito por Paulinha, para quem não é fácil achar o amor. SAUDADE I [Do lat. solitate, 'soledade', 'solidão', pelo arc. soydade, suydade, poss. com infl. de saúde.] S. f. 1. Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia: 2. Pesar pela ausência de alguém que nos é querido. 3. Bot. Designação comum a diversas plantas da família das dipsacáceas, principalmente da espécie Scabiosa maritima, e às suas flores; escabiosa, suspiro: & 4. Bot. Planta da família das asclepiadáceas (Asclepias umbellata). 5. Bras. Zool. V. assobiador (4). 6. Bras. Cantiga da terra, entoada pelos marujos no alto-mar. Explicado por Aurélio, mais uma vez, porque acabei de instalar o dicionário no computador e estou momentaneamente viciada - se é que há vícios passageiros. COMENTE:
19.9.06
TUDO ELE Eu dirijo. Eu marco a hora. Eu atraso. Eu ligo para dizer que vou demorar mais cinco minutinhos. Eu buzino duas curtas. Eu escolho a estação no rádio. Eu controlo o ar condicionado, mais frio, menos. Eu estico as marchas e faço ultrapassagens de perder o fôlego. Eu tiro fino. Eu escolho o caminho, eu elejo a faixa da direita ou da esquerda. Eu me perco. Eu abaixo o vidro e peço ajuda. Eu estaciono mais longe só para evitar baliza. O bom de estar dirigindo é o tudo eu. Meia dúzia de chopes mais tarde, bato o martelo na hora de ir embora. Eu saco a chave. Eu avanço o sinal. Eu passo direto pelo motel. Eu paro em frente ao prédio dele. Eu deixo o motor ligado. Duas da manhã, é ele, é ele o responsável pela parte mais difícil da noite: se despedir e sair do carro. Me beija "boa-noite" e faz que vai embora. Não consegue. Enrola. Passa o dedo no meu rosto, checa se minhas pintas estão todas lá. E eu, que um dia sentei no banco do carona e sei como é duro sair quando se quer ficar, dou risada. Já passei por isso: tirei da cartola assuntos inadiáveis - conversa mole e, principalmente, beijos que não podiam ficar para o dia seguinte. No quinto "tchau" era sair ligeiro ou perder a dignidade. Não presto, sou ré confessa. Me envaidece perceber a resistência dele em sair do carro. Ameaça, chega a abrir a porta. - Só mais um beijo - ele diz, antes de me dar mais dois, três, cinco. - Durma bem. Está tarde - maltrato. Queria me jogar nos braços dele, pedir que ficasse eternamente, que morássemos juntos no banco de trás, duas ou três mudas de roupa no porta-luvas. Mas não: - A gente se fala amanhã - arrisco. É a deixa. Suo frio, cruzo os dedos. Ele quase, mas fica. Relaxo o corpo. - Só mais um beijo, vai - ele, sempre ele, diz, repete, não consegue. Da calçada, pede que eu telefone, avisando que cheguei bem. Sou gente grande, não ligo de jeito nenhum. Quando piso em casa, vem a prova dos nove: o celular toca, é ele. E, por mim, vestia a camisola preta, tirava a calcinha molhada e conversava baixinho até dormir. Publicado por Beltrana, em 2 de abril de 2004. COMENTE:
14.9.06
CABELO, CABELEIRA, CABELUDA, DESCABELADA Com tantas possibilidades de cortes e cores, convenhamos: é um grande desperdício passar a vida inteira com o mesmo cabelo. Mas não é assim que as minhas amigas pensam, a julgar pela quantidade delas que me encontram pela rua, anos depois, exatamente com o mesmo penteado da época do jardim de infância. ELAS: Nossa, você tá tão diferente! EU: Nossa, você não mudou nada!* *Eufemismo para: nossa, você tá tão igual... Chaaaaaaato. Monoooooótono. MONÓTONO [Do gr. monótonos, 'em um tom só', pelo lat. monotonu.] Adj. 1. De um só tom; uniforme. 2. Enfadonho, fastidioso. MONOTONIA [Do gr. monotonía.] S. f. 1. Qualidade de monótono (1); uniformidade fastidiosa de tom. 2. Falta de variedade. 3. Sensaboria, insipidez. Mais do que falar, pratico a tese e mudo a peruca em uma média razoável de cinco cortes diferentes por ano. Agora, ele, essa entidade chamada cabelo, estava quase esbarrando no ombro, quase! Ou seja, enorme. E, você sabe, cabelo comprido é sinônimo de apego. Eu estava apegada ao cabelo, queria o cabelo, acariciava o cabelo, jogava, passava o cabelo na cara dos outros, amava o cabelo e queria que o resto do mundo o amasse com a mesma intensidade e devoção. E ficava protelando o encontro com a minha hair stylist (informe publicitário), deixando para amanhã, para o mês que vem, para quando o salário entrasse, para quando a lua enchesse, para quando o elevador chegasse antes de eu contar até três, para quando eu olhasse para o relógio e todos os números estivessem iguais, inventando desculpas descabidas para não cortar um cabelo que, claro, já estava velho. Sim, o cabelo fica velho. Essas meninas de cabelo pelo meio das costas, pelo amor de Deus, quanto tempo demorou para ficar daquele tamanho? São anos! Anos sem cortar, cultivando aquele mesmo fio, se dedicando e se apegando a ele. Aquele fio que já se sujou, já pegou muita poeira, futum de cigarro, de gordura, maresia, vento, sol quente, um cabelo que já passou por muitas mãos, foi amassado no travesseiro, dormiu molhado, foi esfregado por diversas toalhas mofadas e amarrados por elásticos esgarçados, cabelos enrolados em nós, presos por canetas bic, encostados em assentos de carro suados, castigados por chapinhas e condicionadores de má qualidade, puxados por parceiros descontrolados, invejados por amigas fingidas e sabe-se lá o que de pior já passou um fio de cabelo até transpor a marca do sutiã. Sorte a dos fios que escorreram pelo ralo do box. Trata-se de um cabelo velho. E eu adoro uma novidade. Na mesma semana, esta, cortei o cabelo, pintei o cabelo, e, de quebra, ainda troquei de óculos. Ui. Por favor, não tentem fazer isso em casa. Escrito por Rosana, a nova. E também pelo Aurélio, aquele. COMENTE:
5.9.06
O MEU MAIOR SEGREDO I, II, III, IV, V E VI Em dois anos de casamento, traí cinco vezes. Duas delas foram só beijo, mas as outras três, não. Não me arrependo, mas morro de medo de passar uma doença pro meu marido. E de ser castigada, já que quebrei a promessa de ser fiel. Confessado por Marli, católica carismática. Quando meu filho nasceu, não senti nada. Olhava pro rostinho dele e nada, absolutamente nada. À noite, me dava era mais raiva: ele gritava e machucava ferozmente o bico do meu peito. Agora que ele cresceu um pouco, estou melhor. Deixo com a babá. Preferia que ele nunca tivesse nascido. Confessado por Helena, que queria ter feito um aborto, mas foi impedida pela mãe. Queria que a minha irmã sumisse, só para eu voltar a ser a filha preferida. Confessado por Jaqueline, que usa óculos, aparelho e gagueja. Nunca tive um orgasmo acompanhada, só sozinha. Confessado por Telma, dona de quatro vibradores e maior consumidora de pilhas da cidade. Desde que nos separamos, não passo um dia sem pensar em você. E sempre que me arrumo pra sair, mesmo que seja para ir até a esquina, escolho uma roupa bonita só para o caso de nos encontrarmos acidentalmente. Confessado por Isa, casada e infeliz. O meu maior segredo é tão cabeludo que nunca vou contar para ninguém. E jamais, em nenhum hipótese, o publicaria na Internet. Tá doido? Enviado por L.P.D., depois de gastar meia hora aqui COMENTE:
4.9.06
SITE METER O que as pessoas pesquisam no Google para chegar até aqui: 1. Rosana Caiado / blog / sujeito a chuvas / pseudônimos 2. Marcelo Madureira / Suzana Vieira / Dança do gelo 3. FOTOS DE MENDIGO SEM DENTE E COM O CABELO DESPENTEADO 4. cocô na calça Me impressionam as pessoas que confundem Google com oráculo e fazem perguntas do naipe de: 1. Como comprar os livros do Telecurso 2000? 2. Quero ser feliz...Quero somente achar sentido nisso tudo 3. Onde está meu ex-marido Fred? Pesquisado por Rosana, incrédula. COMENTE:
3.9.06
EXPLICAÇÕES I, II, III, IV e V Não é que eu não tenha escrito mais nada. É que eu guardo no Word. Justificado por mim, em um momento de crise. Não é com você, é comigo. Usado por Marcos, Felipe, José, Bernardo, Humberto, Vitor, André, Teodoro, Gustavo, Douglas, Ricardo, Augusto, Pedro, Leonardo, Otávio, Sandro, Alexandre, Vinícius, Fabrício, Daniel, Henrique, Roberto, Eduardo, Manoel ... Não é que eu não queira: eu só estou com uma preguiça danada. Explicado por Cecília, que só topou depois de combinar que ficaria paradinha. Não é que tô sujo! Eu só não tomei banho hoje. Forçado por Jorge, Maurício, Carlos Eduardo, Alex, Denis, Tomaz, Fernando, Sidney, Guilherme, Hélio, Antônio, Francisco, Arthur, Vitor, Davi, Júlio, Marco, Inácio, Reinaldo, Mário, Gilberto... Não é que eu seja gay... Eu só queria beijar você. Legitimado por E., em um rompante de paixão. COMENTE: |