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28.10.06
MALHAÇAO, MACAQUINHOS, COQUEIRINHOS E O MEU PRIMEIRO ROMANCE Depois de 10 anos de musculação, enchi o saco, pendurei os halteres, joguei o colchonete pro alto - até que enfim -, quatro apoios só lá em casa. Minhas últimas aparições na academia eram como uma reprise do Chaplin em Tempos Modernos. Aquela gente suada, fazendo os mesmos exercícios, vestindo a mesma roupa, ritmados pelo que eu posso jurar ser a mesma música no repeat, copiando corpos, esticando os olhos para ver se o colega ao lado pega mais ou menos pesado que você. Todos iguais entre si e eu, humildemente, me sentindo ostensivamente diferente. Chega, já deu, paguei o plano de 6 meses e só fui cinco, se juntar todos os dias, não dão três. É uma pena que essa decisão, ainda que acertada, tenha chegado justo quando estou à beira do abismo dos 30 anos. Crise. Shopping. Eu sei que não tem nem 10 linhas que falei mal da padronização, eu sei. Não sou disso, nunca me senti fashion victim, eu juro, não faço o tipo. Mas, dessa vez, a carapuça caiu como uma boa calça jeans: logo depois de largar a academia, virar a página, não me procure mais, aconteceu um imprevisto: macaquinhos. Macaquinhos entraram na moda e, não pude evitar, estou apaixonada por macaquinhos. E também por coqueirinhos - outro hit da estação. Macaquinhos estampados de coqueirinhos e, pronto, peço o divórcio e rolo pelo chão entrelaçando os macaquinhos entre as pernas. Sim, quero experimentar, eme, obrigada. O problema dos macaquinhos é que eles são realmente inhos, curtinhos que só. E foi ali no provador da loja onde, apaixonada pelo macaquinho de coqueirinho, me vi caindo no abismo - aquele. Os macaquinhos de coquerinho curtinhos são cruéis com quem deu o pé na bunda da academia. Eu. Foi por isso que resolvi começar a correr. Correr, que maravilha. Correr, que mulher madura, de 30. Correr no lugar mais bonito do Rio de Janeiro. Correr sozinha, livre. Correr por meia hora, sem celular - esse tema precisaria de um outro pôr-do-sol. Correr: quantas idéias correndo dentro da minha cabeça, vou juntá-las e escrever um livro (continua). Logo no primeiro dia, suor, língua de fora, bochechas vermelhas. No segundo dia, dor, muita dor na posterior de coxa, no glúteo, na panturrilha, no culote, na lombar, no pescoço, no lóbulo da orelha esquerda. Mas, pelo macaquinho de coqueirinho, ah, vale a pena, ah, se não vale. O que uma mulher apaixonada não é capaz de fazer? Corri durante uma semana - não o dia todo, mas todos os dias. Até que vi de relance, no meio da corrida, outro macaquinho. Não era de coqueirinho, é verdade. Ele era azul. De malha. Molinho. Jeitoso. Macio. Gostoso. Meu número. E, ora ora, ele não era tão curtinho assim, tão inho como o macaquinho de coqueirinho. Desculpem coqueirinhos, dói dizer, procuro as palavras certas, mas estou fazendo amor com outra pessoa. Me apaixonei! E, no coração, você sabe, macaquinho de coqueirinho, a gente não dá ordem. Um palmo bem aberto é uma medida que uma mulher deve levar em consideração. Comprei o macaquinho azul, gostoso, um palmo mais comprido e esqueci o coqueirinho, esqueci o curtinho, e de quebra, esqueci a corrida também. Pra quê? Mas tudo isso era pra dizer (como ando prolixa!) que o fim da corrida coincidiu com o fim do meu primeiro romance. Não, não acabei de escrever o meu primeiro romance, mas pela primeira vez comecei a escrever um. Foi um bom começo, até: umas 7 páginas. A história era maluca. Não. Pesada. Não. Estranha. Não. Bem, não seria essa uma história que eu gostaria que minha mãe lesse. Por um motivo ou por outro, macaquinho ou coqueirinho, com o fim da corrida, jamais conseguirei retomar a escrita do meu primeiro romance, precocemente inacabada. Rascunhado por Rosana. COMENTE:
25.10.06
A PROPÓSITO Não quero mais falar de Adrianas, Beatrizes, Carolinas, Déboras, Elisas, Flávias, Gabrielas, Helenas, Isabelas, Júlias, Leilas, Marcelas, Neides, Olívias, Paulas, Renatas, Sheilas, Tânias, Úrsulas, Vânias, Xicas, Zitas. Quero falar de mim. Desabafado por Rosana. Deita e espera a vontade passar. Aconselhado por Neuzinha. Ninguém aqui quer saber dessa sua vidinha sem graça, não! Anônimo. Ah, eu já sabia. Cartaz exibido no Maracanã, ao lado de "Me filma, Galvão". Mas o que fizemos de errado? Você não gosta mais da gente? Perguntando por Adriana, Beatriz, Carolina, Débora, Elisa, Flávia, Gabriela, Helena, Isabela, Júlia, Leila, Marcela, Neide, Olívia, Paula, Renata, Sheila, Tânia, Úrsula, Vânia, Xica e Zita. COMENTE:
24.10.06
SEM TÍTULO Fiquei de pijama o dia todo. Constatado por Isabela, vestindo camisola nova, de bolinha. Fiquei de pijama o dia todo. Constatado por Gabriela, vestindo pijama furado, de flanela cinza. Um milk shake grande, ovomaltine, mal-batido, por favor. Pedido por Carolina, 18 anos, magrinha. Um milk shake grande, ovomaltine, mal-batido, por favor. Pedido por Marcelina, 29 anos, há cinco no Vigilantes do Peso. Só fui dormir às cinco da manhã... Dito por Tatiana, sobre a festa da Luciana. Só fui dormir às cinco da manhã... Dito por Juliana, insone. ENQUANTO ISSO II No dia seguinte, duas amigas ao telefone: - E quantos anos ele tem? - Não sei. - Onde ele mora? - Menor idéia. - Onde ele trabalha? - Não perguntei também. - Vocês não falaram nada então? - Conversamos a noite toda! - Ih, que conversa esquisita é essa? - Das melhores. COMENTE:
23.10.06
SUTILEZAS From: "B." To: "A." Sent: Sunday, October 08, 2006 8:36 PM Subject: RE: meias palavras Tam! ----- Original Message ----- From: "A." To: "B." Sent: Sunday, October 08, 2006 8:30 PM Subject: meias palavras Sau! Mostrado por A., rainha das sutilezas, mas que, de vez em quando, se vê em um mal-entendido. II Não sei ler entrelinhas. Constatado por Flávia Maria, que adora um rosa-choque. ENQUANTO ISSO.... Duas amigas no shopping center. Na arara de blusas, uma delas se surpreende ao encontrar um body pendurado no emaranhado de cabides, mais ou menos como quem vê um leão acuado na gaiola dos macacos. - Caraça, miga, caraca! Vc viu isso!? Será q body vai entrar na moda d novo?????????? - Aiiii, tomara, neh, miga? Naum güento mais ver cofrinhoooo! :-P - E eu q não agüento mais mostrar o meu? kkkkk Conversa entre C.M. da comunidade Eu odeio cofrinho aparecendo e R.M. da comunidade Meu cofrinho sempre aparece. Comunidades relacionadas: Cofrinho, não... Banco do Brasil! Um dia boto moeda num cofrinho Melhor calcinha que cofrinho COMENTE:
17.10.06
CARA PREVISÃO DO TEMPO, Há muito tempo acompanhamos seu trabalho, diga-se de passagem, melhor a cada dia, faça chuva ou faça sol. Nós abaixo-assinadas fazemos questão absoluta de nos informar acerca das previsões da senhora diariamente, preferencialmente ao acordar para pautar nossa vida profissional e pessoal de acordo com o que a senhora diz - só depois, lemos o horóscopo. Mesmo sem saber se a senhora vai mesmo ler esse email, gostaríamos de fazer uma sugestão. Nesse mundo globalizado em que vivemos, a senhora sabe que temos que nos reciclar constantemente para estar sempre em dia com a modernidade. Por isso, nossa sugestão é estreitar os laços com os leitores, numa relação quase íntima, de amizade e, claro, todo o respeito. Nossa humilde proposta se refere à inclusão de um plus a mais em forma de dicas importantes para que nós leitoras escolhamos a roupa adequada ao clima de cada dia. Por exemplo, além do já manjado "nublado, 22 graus, ventos SSE, 11 km/hora", a senhora poderia nos aconselhar sobre o quão agasalhadas deveríamos estar. Veja algumas frases de efeito e utilidade ímpar: "leve um casaco", ou"alcinha nem pensar", ou "deixe seu tênis branco novo dentro do armário porque mais tarde vai chover e sujar ele todo", ou ainda "não perca tempo fazendo escova, porque a noite está muito úmida". Caso nossa idéia seja aprovada, teremos enorme prazer em mandar outras 15 frases de alto impacto e adequação para uso da senhora sem qualquer ônus. Gratas, Renata, que gosta tanto da previsão do tempo que se vê no direito de critícá-la. Maria Amélia, que não agüenta mais errar o figurino. Gisele, que prefere errar pra mais do que pra menos roupa. Patrícia, que não pode pegar chuva para não estragar a chapinha. Márcia, que sempre esquece o guarda-chuva Daniela, que tem a garganta fraca. Francisca, que sente mais frio do que os outros. Silvana, que está doida para estrear uma blusinha nova. Tereza, que detesta ficar com a barra da calça molhada. Rosana, que, não por acaso, já teve um blog chamado sujeito a chuvas. COMENTE:
16.10.06
INFIDELIDADE Não sou fiel. Pra quê? Perguntado por Eduardo, 32, recém-separado, traindo a amante. Sou fiel a mim mesma. Interpretado por Fernanda, 29, atriz. Nunca fui fiel, só hoje. Cantado por Rogério. Estou há três meses e cinco dias sem trair. Testemunhado por L.M., no I.A. Sou fiel ao meu time. Distorcido por Paulo, flamenguista. Só sou fiel ao meu cabeleireiro. Mas não vai contar isso pra ninguém... Contado por Juliana - amiga, sozinha e traídora. Nego. Dito pelo não dito. COMENTE:
13.10.06
SONHOS I, II, III E IV. E V. Sonhei com a minha avó de novo. O primeiro sonho foi mudo, durou o tempo de um tchau, mão pra lá e pra cá, sorriso no rosto, roupa preferida no corpo. Olha que isso foi dois dias antes de ela morrer. Dessa vez, o sonho teve falas. Quer dizer, ela falou e eu fiquei prestando atenção. Contou que ouviu tudo o que a gente disse enquanto ela estava no CTI, nossas conversas, rezas, ela ouviu nossas lágrimas molhando o travesseiro. Disse que já sabia o final da história. Depois riu, balançando a barriga. Sonhado por Rosana, no sujeito a chuvas. Eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba, não vou a Ipanema, não gosto de chuva, não gosto de sol. Escrito por Francisco e Antônio. Já. Quando eu era pequena. Sonhava com a privada, muito. (...) Tava apertada e começava a fazer xixi na cama, achava que tava na privada. (...) Ela brigava comigo! Tinha que trocar lençol, botar o colchão pra pegar sol... Eu ficava com vergonha, porque todo mundo sabia que eu tinha feito xixi na cama de novo quando via o meu colchão lá fora. (...) Quando eu conseguia acordar antes, ia correndo pro banheiro. Daí eu sentava na privada e ficava segurando, achando que ainda tava no sonho e que a privada era a minha cama. Eu ficava segurando, ficava fazendo carinho na privada, assim, na parte do lado da privada, passando a mão, passando a mão, pra ter certeza de que a privada era a privada mesmo. Quando eu tava na cama, achava que tava na privada e quando eu tava na privada, achava que tava na cama. (...) Mas agora eu sou grande e já sei a diferença. Faz um tempão que não faço xixi na cama. Tomara que eu não faça nunca mais. Nunquinha. Explicado por Maria, 9 anos. Por mais que eu pense, que eu sinta, que eu fale, tem sempre alguma coisa por dizer. Por mais que o mundo dê voltas em torno do sol, vem a lua me enlouquecer. Na noite passada, você veio me ver. Na noite passada, eu sonhei com você. Cantado por H. Sempre, mas sempre mesmo!, sonho que tô caindo. À noite, antes de entrar no sono pesado, sonho que tô caindo. Se tiro um cochilo no sofá, sonho que tô caindo. Quando pisco no ônibus voltando pra casa, sonho que tô caindo de novo! Dá um susto, sabe como é? Acordo com uma sensação ruim no peito, sabe? O consolo é que todo mundo sonha a mesma coisa, né? Eu, você, a Xuxa, o Silvio Santos, Fátima Bernandes, aquela da novela - Ana Paula Arósio, o Tarcísio Meira - todo mundo sonha que tá caindo de vez em quando. Esquisito esse negócio de sonhar a mesma coisa que um monte de gente sonha, né? Por que, hem, por que que as pessoas sonham o mesmo sonho? Perguntado por Maria, secretária. INCONSCIENTE COLETIVO Inconsciente Cole(c)tivo, segundo o conceito de psicologia analítica criado pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, é a camada mais profunda da psique humana. Ele é constituído pelos materiais que foram herdados da humanidade. É nele que residem os traços funcionais, tais como imagens virtuais, que seriam comuns a todos os seres humanos. Publicado na wikipedia. COMENTE:
9.10.06
O MUNDO DOS SONHOS Na cama, à noite, ELE beija a testa de ELA. ELE: Até amanhã. ELA: Até amanhã por quê? Vai dormir na sala por um acaso? ELE: Claro que não! Vou dormir aqui na nossa cama, do seu ladinho. ELA: Nesse caso, "até amanhã" não se aplica. ELE: Por que não, meu deus? ELA: "Ate amanhã" a gente usa quando cada um vai pra um lugar e só vai se encontrar no dia seguinte. ELE: Então!!! ELA: Então o quê? Você tá me irritando. ELE: Ué! A gente vai cada um pra um lugar, sim, e só vai se reencontrar amanhã. ELA: Ah, é? E pra que lugar a gente vai agora, eu de camisola e você de cueca? Separados?! ELE: A gente vai para o mundo dos sonhos. ELA: Ah, tá, mundo dos sonhos! Só o que me faltava. De qualquer forma, meu bem, a gente vai para o mesmíssimo lugar. ELE: Não vai, não, porque mundo dos sonhos cada um tem o seu. Eu vou para o meu mundo dos sonhos e você vai para o seu mundo dos sonhos. ELA: Eu não tenho mundo dos sonhos. PASSAGEM DE TEMPO: carros correm ao redor da Lagoa em Fast Forward, deixando um rastro vermelho e fora de foco no ar. O céu vai do marinho ao bebê em cinco segundos. Passarinhos cantam. E grilos. E cigarras. E micos fazem seus barulhinhos de "i". ELE: Bom dia... ELA: Eu não tenho mundo dos sonhos! ELE: Meus Deus, ainda isso? Não sonhou nada, minha princesinha? ELA: Sonhei que estava na fila de um banco e encontrei minha mãe, que pediu para eu ir à feira com ela. A gente comprou bananas, brócolis e couve-flor. Aí acordei. E você? ELE: Sonhei que estava num castelo em Praga, fugindo de um seqüestrador de dedos gigantes. Me escondi na sala de jantar do castelo, com lustres espelhados e tapetes de onças vivas. Quando o gigante se aproximou, as paredes ao meu redor ficaram transparentes e ele me viu. Entrei em um corredor, que virou um labirinto mágico, cheio de plantas carnívoras. Dei um salto e descobri que sabia voar, o céu estava furta-cor e... Sonhado por ELA. COMENTE:
6.10.06
ASPAS I Não estou triste, repetia ele sem parar, Não estou triste. Como se um dia pudesse se convencer disso. Ou se enganar. Ou convencer os outros - a única coisa pior do que ficar triste é deixar os outros saberem que você está triste. Não estou triste. Não estou triste. (...) Ele adormecia com o coração ao pé da cama, feito um animal domesticado que não fazia parte dele. E a cada manhã acordava com o coração engaiolado novamente nas costelas, um pouco mais pesado, um pouco mais fraco, mas ainda bombeando. E lá pelo meio da tarde sentia novamente o desejo de estar em outro lugar, de ser outra pessoa, de ser outra pessoa em outro lugar. Não estou triste. ASPAS II Sabia que Eu te amo também significa Eu te amo mais do que qualquer um te ama, já te amou ou te amará; também significa Eu te amo como ninguém te ama, já te amou ou te amará; e também significa Eu te amo como não amo mais ninguém e nunca amarei mais ninguém. Sabia que é, pela definição do amor, impossível amar duas pessoas. ASPAS III Quanto mais você ama uma pessoa, concluirá ele, mas difícil é dizer isso a ela. Ficava surpreso com o fato de estranhos não se pararem na rua para dizer eu amo você. Todas de Jonathan Safran Foer, em "Tudo se ilumina"´- recomendo. E recomendo também "Uma vida iluminada", o filme. COMENTE:
3.10.06
TERRÍVEL SEGREDO No dia em que o sol nascer preto e todas as folhas caírem de todas as árvores magras, os cachorros andarão sobre duas patas. Você passará a andar de quatro. E eu vou virar uma estrelinha brilhando lá no alto. No dia em que a lua subir negra e as ondas invadirem as ruas, os macacos perderão os pelos. E você você comerá 114 bananas. Eu me transformarei em uma sereia e nadarei até a África. No dia em que o sol não nascer, a lua atingirá a Terra e as estrelas pegarão fogo. Você vai se dissolver em creme de baunilha E eu voltarei para a barriga. No dia em que o céu descer a Terra e a terra afundar até o inferno, os diabos perderão os chifres. Você você andará sobre as águas E eu Vou me pendurar em um rabo de pipa. No dia em que a noite chegar às seis da manhã, os anjos se vestirem de roxo e as rodas-gigantes saírem dos eixos, você você queimará no inferno e eu eu serei o demônio. (Bem que esse dia podia ser amanhã.) Psicografado por alguém que não disse o nome. COMENTE: |