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22.1.07

CARTA DE VÉSPERA
Mais cedo, choveu forte, choveu chiado, choveu sofrido. Trotei vinte passos até alcançar o carro. Demorei a encontrar a chave, amiga da chuva, as gotas pesadas escorregando corpo abaixo. Estava gostoso, admito. Banho ao ar livre, desculpa pra ficar mais tempo do lado de fora. Até que olhei para um lado, arrisquei o outro, e o outro: não vi ninguém. Pensei em você. Todos os dias são nublados se você não está.

Obediente, dirigi para casa devagar, devagarinho, coração a cento e trinta por hora, com medo da pista escorregadia e dos ângulos mais fechados da Lagoa. Cuidado, curva perigosa. E, logo na primeira, uma árvore. Uma árvore grande, verde, triste. Caiu, coitada, caiu. Estirada na pista da esquerda, esperava as autoridades para o resgate de seu tronco cansado.

Cheguei sã, tirei o tênis ainda na porta e calcei seu chinelo. Não é da cor de minha preferência e fica enorme no meu pé - o que não faço pela ilusão de ficar um tantinho mais perto de você? Tropecei até a varanda, para salvar nosso varal. Caiu também, como a árvore, galhos brancos, frutos ainda verdes direto da máquina de lavar. Carreguei nosso varal lá pra dentro, atropelei o sofá, o armário, a porta da cozinha, a mesa, deixei cair o banco branco. Pelejei pra abrir nosso varal outra vez, pesado, ainda não tenho intimidade com ele, grande, difícil de equilibrar. Consegui.

A casa não é a mesma sem você. Sem o seu cheiro, sem o teclado digitando ligeiro, sem você, sem você, sem você para quebrar o silêncio e me pedir um beijo. Sem você vigiando meus dedos do pé. Sem você me cheirando, sem você brincando com os coelhinhos, sem você pra levantar minha saia, abaixar minha blusa, me atrapalhar a fazer o almoço - hoje não teve.

A casa não é a mesma sem você e seus barulhos. Os vidros das janelas tremem, como eu, só porque você não está aqui. O ventilador é só pra mim, mas não faz diferença: sem você, fico fria. O controle remoto é só meu: ligo a televisão até os filmes de aventura invadirem meu sono.

Fora isso, aconteceu apenas o inevitável: o cabelo espichou, o peso diminuiu, a pele perdeu o viço. Aconteceu o inevitável: o amor cresceu. Volta.

Escrito por um coração apertado.


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19.1.07

BLOG ETC
Quem disse que blog não serve pra nada? Foi por conta do extinto Fulana e Beltrana que publiquei meu primeiro conto na Revista Ficções. Não só isso: o F&B foi muito importante por me fazer escrever todo santo dia e, de quebra, me fazer sentir a rainha do bobó. E foi por causa do Sujeito a chuvas que, bem, o Sujeito a chuvas não serviu pra nada - foi um blog de transição. E agora, por conta deste blog onde vos escrevo, recebi um convite bem bacana. Mais informações em breve, se o projeto for adiante. Tomara que vá.

Como ando sem assunto, sem inspiração, sem nada a dizer mesmo, aí vai um copy/paste no mínimo engraçado:

DESPEDIDA DE CASADA
"Virou moda nos Estados Unidos. Além das despedidas de solteira, as mulheres fazem festa também quando se divorciam. Há empresas especializadas em eventos que vão de noitadas com strippers a jogos de dardos com as amigas (mirando fotos do ex)."

ETC
Blogs servem também como mural de recados - alguns mais, outros menos evidentes.

"FRASES DO TOMÉ AOS TRÊS ANOS", Arnaldo Antunes, Editora Alegoria
O tempo nunca acaba, nem quando a gente morre.

O mar tem tanta água que a areia nem consegue beber.

Só mais um outro último, tá? Eu quero muitos últimos.

Por que às vezes não é sempre?

Sabe qual é a pior coisa que tem pra gente? Morrer.


Contado e copiado por Rosana Caiado.


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