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29.4.07

SOLIDÃO CALADA III
Depois de uma hora e meia reclamando da existência de sábados à noite e finais de tarde de domingo, lamentado o fato de que o último homem com quem dancei ter sido pago para isso e ser meu professor, e maldizendo o melhor carinho que recebi nos últimos dias por ter vindo do trocador de ônibus, me cutucando para entregar o troco, toca o telefone:

- Tô ligando para avisar que Fulano de Tal morreu.

Fulano de Tal, Fulano de Tal, demorei a atinar quem era. Estava hospitalizado, era uma morte anunciada. Nossa relação, superficial. Tudo isso em fast forward, Fulano de Tal, morte, eu, trocador, sozinha. Falei:

- Ah, não! - e comecei a soluçar.

Chorei mais de 15 lágrimas pesadas. Com todo respeito ao Fulano de Tal, não sei se choraria uma só lágrima por ele. A pessoa do lado de lá da linha, coitada, se surpreendeu com minha reação, sentiu muito e desligou rápido.

Chorado por Rosana.


SOLIDÃO CALADA IV
Caso Marcinei se recuse a me fazer companhia, já sei quem imitar.



Abraçado por Pacha.



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26.4.07

SOLIDÃO CALADA II
Depois de vinte minutos reclamando da existência de feriados e de sextas-feiras, lamentado o fato de que último homem que abracei ter nascido há mais de oitenta anos e ser meu pai, e maldizendo o melhor carinho que recebi nos últimos dias por ter vindo da pedicure, lixando a sola do meu pé, ouvi o seguinte conselho:

- Compra um jabuti!

Jabuti? Deus me livre! Ainda doem no meu peito as lembranças do Beto, o peixe beta, que tive a infelicidade de matar. Foi sem querer, eu juro. Uma tragédia que teve desdobramentos traumáticos.

Hoje, um ano depois, já consigo tocar no assunto.

Foi o seguinte: eu gostava de observar Beto, o peixe beta - meu companheiro de todas as horas, principalmente a da novela. Foi assim que notei, por exemplo, que ele ficava mais quietinho nas cenas em que nada acontecia: passagens de tempo, flashes do Rio, céu do royal ao marinho. E foi assim que percebi também que ele ficava agitadíssimo nas reviravoltas da trama: bate-bocas, atentados, revelações de segredos do passado. Então, criei o hábito de, antes de ligar a novela, mudar o aquário de lugar, para não incomodar Beto, o peixe beta.

Por mais que a intenção fosse boa, fato é que deixei a casa de Beto escorregar de minhas mãos e se espatifar no chão da sala. Foi um susto terrível, corri de meias até a cozinha, enchi um copo d'água para salvar Beto, massagem cardíaca, respiração boca a boca. Beto, cadê o Beto? Embaixo do móvel, peguei, joguei dentro do copo. E foi aí que ele afundou. Beto afundou. Beto estava morto, degolado por um dos cacos de vidro do aquário.

Uma tragédia.

É aqui que entra Marcinei, o vendedor de mármore. Na época, estávamos em intensas negociações: ele iria me vender prateleiras de mármore para a sala de jantar e me telefonou justo na hora em que Beto havia acabado de falecer, assassinado por ninguém menos que eu. Digamos que eu estava sensibilizada. Marcinei disse que a entrega havia atrasado, mas que chegaria no dia seguinte.

Respondi aos soluços. Marcinei, o vendedor de mármore, notou - óbvio. E desligou rápido.

Se a história acabasse ali, tudo bem. O problema é que as prateleiras não chegaram no dia combinado e Marcinei voltou a ligar - dessa vez, para o meu celular. Atendi novamente aos soluços, agora sensibilizada por conta da Telemar que havia cortado injustamente o meu telefone e a minha Internet. Marcinei, o vendedor de mármore, percebeu, claro. Prometeu as prateleiras para o outro dia sem falta. E desligou rápido.

Se a história terminasse ali, vá lá, tudo bem. Só que Marcinei ficou sensibilizado com meu evidente estado depressivo e, no terceiro dia, me telefonou perguntando se as prateleiras haviam ficado de meu agrado - o que Marcinei queria mesmo era me oferecer a sua amizade.

Na época, esnobei. Mas hoje, hoje estou pensando seriamente em orçar um blindex para o banheiro de visita. Com Marcinei, o vendedor de mármore e box blindex, quem precisa de jabuti?

Aconselhada por Mariana.

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19.4.07

TRECHO I
Ela checa o cardápio na parede, não entendo o motivo: invariavelmente pede uma Mariana. O sujeito do lado de lá do balcão coloca o copo baixinho na sua frente. Ela vira em um gole só. Só assim. Sopra o ar quente que lhe arrepia os pelos do braço. Vem a sensação de estar na mira de alguém - do homem alto, moreno, camisa cinza para fora da calça jeans. Quando reconhece Eduardo, a primeira frase em sua cabeça é: "Merda. Minha calcinha não combina com o sutiã".

Eduardo sorri para ela. Eduardo sorri e ela fica que nem estátua, boba. Há exatas dez quartas-feiras, havia começado o ritual: caminha até a rua dele, pede uma Mariana e cruza os dedos indicador e médio, na esperança de ele passar. Já tinha decorado possíveis diálogos mas, na hora agá, deu branco.

Trocam meia dúzia de frases desconexas. Eduardo é do tipo que vai direto ao ponto:
- Quer subir? - arrisca.

Ela demora a responder.
- A gente toma uma cerveja, bate um papo... - ele passa a mão na cabeça.
- Pode ser - disfarça.

Não era assim que tinha decorado.

No apartamento, muitas informações novas. Difícil dar conta de tudo. Os lábios desenhados de Eduardo se movem como se estivessem soltando palavras, mas ela não presta atenção. Livros, almofadas e CDs lhe confidenciarim o dobro. Na estante, uma fileira de porta-retratos onde pessoas de férias dão sorrisos para qualquer um - até para ela. Por reflexo, vira-se de costas: é preferível não encarar as possíveis testemunhas.

Eduardo pergunta o que ela tem feito, o que está ouvindo, e outras chatices. Escolhe o CD de uma banda cujo nome ela sequer sabe pronunciar.
- Gosta?
- Adoro - balança a cabeça para frente e para trás.

Vai decorar o nome de duas ou três bandas de rock inglês para impressioná-lo na próxima oportunidade.

- Posso ir ao banheiro? - pede, como uma aluna da terceira série.
- Claro. É ali - aponta.
- Obrigada - tropeça.
- Não repara, não, mas a descarga tá mal das pernas.
- Tudo bem, não vou precisar. É que eu tô de calcinha branca e sutiã preto e fico com vergonha. Vou trocar. Tenho sempre uma calcinha reserva na bolsa, preta.
- Prefiro branca.

Entra no banheiro e faz dois minutos de xixi. A descarga ameaça, mas vai. Lava as mãos, levanta o braço e encosta o nariz na axila - ok. Mostra os dentes ao espelho e tira uma remela. "Não acredito que ele viu minha remela". Arranca o sutiã preto pela manga da blusa e guarda dentro da bolsa. Abre a porta com os mamilos alertas.

Escrito por Rosana Caiado, em 2004, no conto inédito "Quartas, às 19h".



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18.4.07

PERDOAR I, II, III, IV E V



Perdoar é também uma tentativa de esquecer.
Escrito por Christiane Tassis, em seu primeiro e ótimo romance - "Sobre a neblina".

II
Eu te perdôo por ter chegado atrasado no jantar que preparei especialmente para você - pimenta e alecrim. Eu te perdôo por ter chegado atrasado e bêbado e sujo às quatro da manhã. Eu te perdôo pelas desculpas mentirosas. E te perdôo pela blusa sem combinar com a calça jogada no chão do banheiro segundos antes do banho fajuto de um minuto de duração. Te perdôo pelas cuecas furadas, pelas rosto marcado por espinhas adolescentes e pelo pescoço arroxeado por mulheres de quinta. Te perdôo por bater portas e socar paredes inocentes. Te perdôo por esbofetear minhas bochechas, primeiro a esquerda e depois a direita. Te perdôo por falar alto palavras baixas rodeado por vizinhos insones. Te perdôo por me culpar, por me contradizer e, principalmente, por ignorar o som ecoado do toque de minhas lágrimas na fronha de cetim branco, bordada pela minha santa avó. Te perdôo por não ser quem eu imaginava que fosse, te perdôo por não ser quem disse que era, quem você prometeu, quem você só foi naquela primeira vez - fogo e pompa.

Mas não, nunca, eu não te perdôo por deixar de me amar.

Ressentido por Giulia, por carta, antes de sair de casa.

III
Eu não te perdôo por me deixar.
Reclamado por Sara, separada há onze meses e quatro dias.

IV
Eu não te perdôo por deixar que eu te traia.
Argumentado por Márcia, três vezes e meia depois.

V
Eu te perdôo por me deixar, mas com uma condição: volta?
Pedido por Maria de Lourdes, que não perde a pose.



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10.4.07

NO ELEVADOR NO DOMINGO DE PÁSCOA
EM MINHAS MÃOS, UM ARCO DE ORELHAS BRANCAS DE PELÚCIA . BRUNA E SUA MÃE ENTRAM.

EU: Oi, Bruna! Tudo bem?
BRUNA: Tudo.

EU OLHO PARA BRUNA. BRUNA OLHA PARA O TETO.

MÃE DA BRUNA: Você tem esse arquinho de coelha igual ao da moça, né, filha?

SORRIDENTE, COLOCO O ARCO DE ORELHAS BRANCAS DE PELÚCIA EM MINHA CABEÇA.

EU: Meu nome é Rosana.

BRUNA OBSERVA AS ORELHAS BRANCAS DE PELÚCIA EM MINHA CABEÇA.

MÃE DA BRUNA: Hem, filha? Você não tem a orelhinha igual a da Rosana?

BRUNA: (CONSTRANGIDA) Não, mãe... Eu já dei.

A PORTA DO ELEVADOR SE ABRE E ESCAPO.


Relatado por Rosana, 29, que quer terrivelmente ser amiga de Bruna, aproximadamente 7, que já deu seu arco de orelhas brancas de pelúcia.

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9.4.07

UM OVO, DOIS OVOS, TRÊS OVOS ASSIM
O aniversariante do dia, especialista em chocolate como o próprio nome (do blog) diz, me contou em uma reveladora conversa de MSN que não gosta de ovo de páscoa. O motivo procede: é pouco prático, quebra e dá formiga. Concordo com ele nos três argumentos, mas, em contrapartida, alego o frisson que somente um ovo de páscoa pode exercer, ainda mais em uma alma aflita como a minha, em um fim de tarde nublado como este.

No ano passado, de olho na balança, caí na besteira de avisar que não queria ganhá-los. Que decepção. O coelhinho ouviu e não passou na minha casa. Senti falta, apertei os lábios em bico, me arrependi amargamente - cuidado com os seus desejos. Dessa vez, como recompensa, ganhei logo dois vistosos ovos de páscoa.

Ainda há pouco me concedi o prazer de abrir um deles - cor-de-rosa, perfumado. Desculpe, Gus, mas não há no mundo, nem na Bélgica, nem na Suíça, uma embalagem de chocolate que me faça tão feliz como a de um ovo de páscoa. Primeiro, o adesivo; em seguida, a fita em nó; depois, o tilintar do papel sendo aberto até o vislumbre do chocolate envolto em laminado. E a melhor parte: separar as metades e descobrir o que o ovo traz escondido em sua intimidade. No meu caso, benza Deus, uma mini-barbie. E nesse ponto me permita um parágrafo porque a Hebe das bonecas merece um só para ela.

Pra início de conversa, logo percebi tratar-se de uma Barbie contorcionista - veio dobrada ao meio, cabeça nas panturrilhas (e não nas canelas) braços estendidos, rosto blasê, em uma posição de alongamento de dar inveja à minha professora de jazz. Não me lembro da última vez em que ganhei uma Barbie. Esta, mesmo anã como previu meu querido Gustavo, é uma Barbie standard, loira, dos cabelos lisos pelo meio das costas. A inovação fica por conta da calça jeans - as da minha época, e lá se vão muitos pogo-balls e queridos pôneis, só se permitiam usar vestidos godês. Melhor do que a calça jeans, só o apoio em formato de flor, obviamente cor-de-rosa, onde encaixamos a boneca para deixá-la em pé. Me emocionei. Na minha época, e lá se vão muitos Kens e Bobs, elas não sabiam ficar em pé sozinhas, coitadas, se viam obrigadas a deitar pelas prateleiras de brinquedos, ou se apoiar ora na Lu Patinadora ora na Moranguinho.

Voltando ao ovo de Páscoa, é ao leite, doce, derrete na boca, divino. Saboreei alguns pedaços generosos de uma única metade, o que significa que ainda tem bastante de onde estes vieram. Se eu fosse você, Gus, passava nas Lojas Americanas mais próximas e comprava o seu.

Escrito por Rosana, que se apegou e quer deixar o cabelo crescer.


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3.4.07



TÁ SENTINDO ESSE CHEIRO? É DO RALO.
Tá vendo essa pereba? É da alergia.

Inspirada em Lourenço.



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NO CONSULTÓRIO
- Mas, doutor, de repente, meu pescoço começou a reclamar do colar, minha orelha não agüenta mais cinco minutos de brinco, meus olhos não querem mais saber de corretivo, doutor! Tô cheia de olheira, doutor! Me ajuda, pelo amor de Jesus Cristo!
- Alergia!
- Alergia? Mas não usei nada novo! É o mesmo colar que pendurei o verão inteiro! O corretivo já tá no finalzinho do terceiro tubo! E o brinco, o brinco é aquela bolinha de ouro que furaram ainda na maternidade!
- Alergia é assim mesmo: ninguém nasce com ela. A alergia vem com o tempo, com a exposição. Estava tudo muito bem, até que um dia a gente não tolera mais certas coisas. E o nosso corpo dá um jeito de mostrar isso.
- Como nos relacionamentos amorosos, doutor?

Perguntado por quem não possui conhecimentos científicos e psicológicos para compreender, explicar e, menos ainda, justificar aquilo que aconteceu. A pessoa que cometeu esse ato não é a que vocês conhecem.


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