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28.5.07
MÚSICA PARA OS MEUS OUVIDOS I O melhor a ser feito ao ouvir uma música, fechar os olhos e imediatamente ver corações em pisca-pisca e setas de néon vermelho apontando para o 3x4 de determinada pessoa é, sem dúvida, contar para ela. Passe a mão no telefone ou mande um e-mail com a letra da canção. Não faltam motivos. Encabeçando a lista, o fato de que alguns sentimentos e a maioria dos desejos não gostam de se sentir sufocados - tenha consideração por eles, mesmo que isso signifique colocá-los para fora. Poucas ações são melhores se feitas sozinhas. Pensar em alguém logo nos primeiros acordes de uma seqüência decorada não é uma delas. Assim, com sorte, a música endereçada há de chegar aos ouvidos do destinatário no rádio do carro, no fim de uma festa ou no assobio desafinado do ascensorista do elevador. E aí, aí você não mais estará só. Romântica, eu? Teorizado por Rita, que desligou quando ele disse "alô". II Que é que tu vê, que é que tu quer, Tu que é tão rainha? Branquinha Carioca de luz própria, luz Só minha Quando todos os seus rosas nus Todinha Carnação da canção que compus Quem conduz Vem, seduz Cantado por Caetano, em "Branquinha". III Eu seria mais feliz se tivesse nascido Luiza. Ou Beatriz. Gabriela. Talvez Maria. Não que eu renegue o meu nome, pelo contrário. Gosto da cor, da flor, da rima, dá liga. Mas de que adianta: um nome bonito desses assim sozinho, não dá pra acreditar, um nome bonito desses que nunca levou uma cantada, um nome que nunca ganhou acordes, sustenidos nem bemóis em uma sexta à noite. Um nome que não é título e não repete no refrão, Rosana, Rosana. Quero uma música para chamar de minha. Início da coluna dessa semana, chamada "Canção para Rosana", publicada AQUI. COMENTE:
23.5.07
OPORTUNOS SILÊNCIOS I "(...) e, assim, cheios de oportunos silêncios, fomos repondo vinho em nossas taças e reinventando histórias que nunca havíamos contado, e as horas se passaram e Camilla esqueceu a comida esfriando na bancada e eu deixei o resto de pizza em cima do prato. Eu pensava que Camilla era um nome grego, e o seu rosto agora era o de uma estátua egípcia, Camilla, você parece uma rainha egípcia, eu até poderia ter dito, e eu talvez tenha dito algo assim, palavras que nem sequer eram minhas, Camilla, como você faz isso de colocar palavras na minha boca? E era como se ela fosse sussurrando no meu ouvido e eu apenas repetindo, imaginando que já as tinha ouvido, em algum disco, em algum filme, e naquela noite, sem querer, disse a Camilla coisas que não me lembro em idiomas que não em pertenciam, Camilla, diálogos, poemas, restos de boleros, Camilla, e o seu rosto parecia uma máscara, e o seu sorriso tinha algo de abandono, e as suas mãos desapareciam entre as minhas(...)". Escrito por Carolla Saavedra, em seu primeiro romance - "Toda terça". OPORTUNOS SILÊNCIOS II. . . . . . . . . . . Silenciado por mim. COMENTE:
22.5.07
CARTA PARA TATI II OU MINHA COLUNA I
Querida Tati, Hoje entrei na sua casa de novo. Dessa vez, foi rápido. Deixei o carro piscando em frente à extinta "Pão & Companhia" e* - sobre a padaria, lembro desse caso de quando éramos tão bobinhas e envergonhadas que tínhamos vergonha de pedir o pão ao padeiro: entramos na fila e, quando chegou nossa vez, em vez de pedir meia dúzia, você encarou o padeiro e disse "moço, ela quer falar com você"; você apontou pra mim e eu, quem mais?, eu tive que pedir o pão, com mais raiva do que vergonha. Cinco minutos depois, liguei pra minha mãe ir me buscar. Isso não tem a menor graça para mais ninguém no mundo - exceto para nós duas, talvez só para mim. Mas não são as lembranças que não fazem sentido para ninguém mais além dos envolvidos as que são mais prazerosas e especiais e inesquecíveis? * nquanto corri pela sua rua, subi os três degraus da sua casa, olhei pra sanca, pro chão, pras portas - as mesmas - já esticando os olhos para a sala do piano, em dúvida se preferia subir a escada ou checar se a tampa do vaso era de borboletas quando a mocinha chegou com meu exame em mãos - raio x panorâmico da coluna vertebral. Tati, dessa vez não quero te contar sobre a sua casa, ela continua lá, igual, igualzinha e tem pessoas felizes dentro dela. Queria te contar mesmo sobre a minha coluna: adorei! Tem uma imagem de frente e outra de perfil. A de frente até que não está mal, tem só um desvio para o lado do coração - dispensável um raio x pra saber. A de lado complica um pouco: bunda empinada demais e peito estufado de menos, chamados no laudo de hiperlordose lombar e hipercitose dorsal. Mas tudo bem. Quero arrancar os quadros da parede da sala e colar meu raio x. Melhor: passo um durex no vidro da varanda, assim a luz bate e minha coluna, soberana. Sensação similar só quando Eva, a boneca, morava no estacionamento do BarraShopping. Radiografado na Padre Elyas, 49. MINHA COLUNA II Quero que você veja o meu raio x. Você quer ver? Quero me mostrar no raio x pra você. Você quer? Olha pra mim. Cantado no quarto, na sala e na varanda. MINHA COLUNA III Agradeço aos amigos que leram minha primeira coluna ontem e encheram minha caixa postal de e-mails muito queridos. Obrigada! Agradecido por Rosana Caiado, autora, compositora e colunista. COMENTE:
21.5.07
MINHA PRIMEIRA VEZ I Todas as minhas amigas já tinham beijado, menos eu. Tinha esse menino da escola que gostava de mim e de quem eu começava a gostar. Ele era mais velho e se dizia "disposto" a tirar minha virgindade de beijo. Só que ele falava de um jeito que me intimidou e me afastou dele. Tanto que resolvi beijar a boca de outro garoto, de quem eu obviamente não gostava. O eleito era lourinho, bonitinho e metido a saber dançar. Antes de ir pra festa, uma amiga mais experiente na arte do beijo sugeriu que eu chupasse uma laranja, como treino. Fiquei desesperada. Eu detestava laranja! Cheguei na festa em pânico, dentro de um vestido estampado de marrom - odeio marrom. O garoto já estava lá e, como tudo havia sido previamente arranjado, me levou direto pra escada. Ele me deu um desenho do rosto dele, feito por um desses artistas de rua. No verso, eu lembro, estava escrito assim: "Enquanto te segue a cópia, o original pensa em ti. Te amo". A gente se beijou. Não foi bom. Foi bem estranho, na verdade. O problema foi que ele tinha arrancado o siso justo naquele dia. Resultado: o meu primeiro beijo teve gosto de dentista. Durante e depois da festinha, a gente se beijou várias vezes, fomos ao cinema, tivemos um mini-namoro. Eu não me lembro de nenhum outro dos nossos beijos, só do primeiro. Lembrado por Júlia, que no dia do primeiro beijo escreveu em seu diário que beijo é que nem Schweppes - você tem que se acostumar. MINHA PRIMEIRA VEZ II A primeira vez que fui ao cinema sozinha, achei chato. Chato como comer uma caixa de bombom sozinha. Chato como ir almoçar fora sozinha - pra mim, só se for no quilo. O filme até que era bom, mas, se eu estivesse com você, teria aproveitado muito mais. Escrito por Letícia Maria, que nunca fui ao cinema sozinha. MINHA PRIMEIRA VEZ III Sou tímida nos três primeiros minutos de conversa. Fico sem-vergonha depois de três copos. Conto segredos depois de três parágrafos. Abaixo a guarda no terceiro beijo - caso o primeiro me faça contrair o abdome. O primeiro sutiã, a primeira transa, a primeira vez em que te disse "eu te amo" são estréias inesquecíveis. Continuo virgem de ir ao cinema sozinha, virgem de Europa (exceto Paris) e era virgem de escrever coluna, até começar o primeiro parágrafo. Ainda bem que ainda nos restam muitas virgindades, ou a vida poderia ser mais curta. Escrito por Rosana Caiado, nova colunista do portal COMENTE:
18.5.07
BRIGAS I - Hoje fui ao médico. Amanhã vou de novo. E depois de amanhã de novo. - Vai gostar de médico assim na China! - Hoje, homeopata; amanhã, ginecologista; quinta, ortopedista. - Ortopedista? Pra quê? - Pra eu deixar de ser corcunda. Vou fazer RPG. - RPG é legal, mas no começo dói pacas. - Não fala isso! Não quero sofrer. Já sofro demais. - (RI) Menos drama, por favor. - Dá um desconto, vai... TPM... - Também tô de TPM, me esforçando horrores pra não brigar. - É? Será que a gente vai brigar? - Não. Ou então vou chorar três dias sem parar e ficar desidratada. - Ah, vamos brigar, por favor! - Não. - Poxa, eu não posso beijar, não posso abraçar, não posso trepar, não posso dormir abraçada... Nem brigar eu posso? - Louca! - Ah, faz isso por mim, por favor! - Tá bom, eu brigo. - Jura? Fiquei até arrepiada! - Que tipo de briga você tá precisando? Gritos? Palavrões? Tapa na cara? - Você pode brigar free style. - Então, tá. Amigo é pra essas coisas. - Ai, amiga, assim eu vou chorar... TPM... Baseado em uma conversa no MSN e editado por Rosana, que nem brigar pode. COMENTE:
17.5.07
VARGAS LLOSA IV Finalmente, achei, nesse valioso endereço, "Os cadernos de Don Rigoberto". "Tenho o fetichismo dos nomes e o seu me cativa e enlouquece. (...) Quando o pronuncio, em voz baixa, só pra mim, me percorre uma cobrinha pelas costas e me gelam os calcanhares rosados que Deus me deu (ou se preferir, seu descrente, a Natureza). (...) Diante do seu retrato, faço o sinal da cruz e rezo. Sua, sua, sua Fetichista de nomes" As 310 páginas do livro estão cheias de frases boas de se ler na cama, preferencialmente, sem nada e com ventilador ligado. "Seus lábios e mãos deixavam labaredas por onde passavam". "(...)ela se aproximou, grudou-se nele e o beijou, primeiro superficialmente, percebendo que ele custava a responder aos lábios que se esfregavam nos seus, e a replicar depois às ameaças de sua língua. Quando o fez, ela sentiu que nesse beijo o engenheiro ia lhe entregando o seu velho amor, sua adoração, sua fantasia, sua saúde e (se tinha) sua alma". "Não tomarei nenhuma iniciativa. Tome-as você, todas. Nesse momento, sou a pessoa mais feliz e mais desgraçada da criação". "(...) se concentrava naquele corpo suave que se deixava tocar, acariciar, facilitando com gestos o acesso de suas mãos e lábios a todas as partes, mas sem responder a carícias nem beijos, em estado de passivo deleite". "Teve vontade de magoá-la; mas, em vez disso, beijou-a". Por motivo inexplicável - como tantos - parei a leitura na página 164, na metade de um capítulo, no meio de um parágrafo, no separar de duas sílabas. Parei. Adio, cancelo, me privo - por quê, meu Deus? (ou se preferir, seu descrente, por quê, Natureza?) Deixei os cadernos estrategicamente em minha cabeceira, ao lado da vela de citronela , que ontem soprei com força similar a do meu aniversário de 10 anos, de modo que voou cera sobre a capa preta até a minha cara branca - que raiva. Imediatamente, tomei seis gotas de floral. Mas só me acalmei de verdade ao avistar o corpo do pernilongo obeso estendido no chão. ********** Recebi quatro livros para o trabalho. Minha primeira escolha se deve à orelha - do livro - escrita por outro escritor por quem guardo grande admiração, Sérgio Sant'Anna. Ainda estamos no começo, mas esse livro já está dormindo comigo, no lado direito da cama. O nome dele é "Toda terça", autoria de Carola Saavedra. Em breve, um trecho. COMENTE:
16.5.07
CARTA PARA TATI Rio, 11/05/07. Querida Tati, Sempre sinto saudades de você e imagino sua barriga crescendo. Quero muito te ver amanhã, no seu chá de bebê - que alegria. Mas hoje a ansiedade não me faz capaz de esperar 24 horas, nem 24 minutos para te contar o que houve. Explico: fui ao ortopedista na Rua Santo Afonso, reclamar de dores na região lombar. A médica me pediu um raio x panorâmico e me indicou o melhor lugar para fazer o exame. O endereço: Padre Elyas Gorayeb, 49. O resto você já pode imaginar. Tati, fiquei muito emocionada ao entrar na sua rua depois de tantos anos. Ela era mais comprida; agora, tenho certeza, encurtou. A fachada da sua casa está praticamente igual - se bem que no momento se misturam na minha imaginação as cores dos nossos (permita que me aposse) tempos e as de hoje. A porta lateral estava aberta e havia uma placa onde li "entre". Obedeci. Subi dois degraus, entrei na sua sala, agora dividida pela metade por uma parede nova. Mas o piso, aquele piso que sempre achei super luxuoso, de pedra, contornado em preto, é o mesmo. Nossa, que saudade daquele chão. A sanca (o rodapé do teto) ainda está lá e que carinho senti por ela. Lembrei do seu quarto, enorme, cor-de-rosa. Lembrei de uma foto em que você está de pé, segurando na frente do corpo uma almofada em formato de coração - como eu invejava aquela almofada. Virei criança, olhando tudo em volta, atropelada por lembranças da infância. Meu coração quase não se agüenta dentro do peito. Ainda na sala, tem agora um balcão preto e fileiras de cadeiras onde sentar e esperar. Fiquei de pé, atônita, até que a mocinha atrás do balcão passou a me encarar. Ao lado dela, a placa: Raio X e Mamografia - 1º andar / Densitometria e Ultrasonagrafia - 2º andar. - Posso te ajudar? - O que tem no terceiro andar? A mocinha esperava qualquer pergunta, menos aquela. - No terceiro andar?! - É, no terceiro andar. - É o terraço. - O terraço! - avalanche de lembranças - O que tem lá? - É o refeitório. Sem entender meu longo piscar de olhos, a mocinha não se conteve e perguntou o motivo da curiosidade. - É que minha primeira melhor amiga, de quando eu era da primeira série, morava nessa casa. Já brinquei muito aqui dentro. - Ah, tá. Espichei o olho lá pra dentro: deu pra ver o início do corredor e o banheiro de visita, posso jurar que iguais, iguaizinhos. A porta da copa estava fechada e pregada nela uma placa onde li "mamografia". Antes, a entrada da saleta, onde ficava o piano. Muita vontade de entrar ali e te ouvir tocar "Pour Elise". Um rapaz de jaleco branco me chamou. Disse "por aqui". Passando pela saleta do piano, a minha expressão era de quem entrava no Magic Kingdon. Prateleiras entupidas de papéis roubaram o espaço do espelho, o tapete saiu, o seu piano - preto, lindo - infelizmente não estava lá. A escada sim, claro, onde meu hamster foi pego em flagrante fuga e quase morto a chineladas quando seu irmão chegou de madrugada de uma festa. Atravessamos a saleta e, no que era a sua garagem, descobri a sala de raio x. O ar condicionado no máximo. Tremi, mas foi de emoção. Comecei a escutar o barulho das unhas das patinhas aceleradas da Xuxa e da Pipoca pelo antigo chão vermelho da garagem, mas elas não vieram. Queria subir, ver seu quarto, o da Fabiana, até o do Breno eu queria ver. A parede de cortiça, a parede de espelho, o escritório, a cadeira do escritório, o peso de papel, tudo. O rapaz do raio x não ouviu meus pensamentos, preocupado em me colocar na posição certa. Eu teimava em me mexer, desconcentrada, desconcertada. Ele disse: - Puxa o ar. Prende, segura. Agora solta. O rapaz viu minhas entranhas, meus ossos, pulmão, coração, o rapaz me viu como ninguém vê e nada pôde entender quando ameacei uma lágrima. Tati, sorte a da sua família e de seus amigos que, como eu, viveram saudosos momentos da infância e da adolescência na sua casa, na casa da Tia Rita. Obrigada. Quando soube que a casa tinha virado uma clínica, me entristeci um pouco, imaginado pacientes doentes, sofrendo dentro de uma casa onde vivi tantas alegrias - ok, e implicâncias e briguinhas de crianças também... Hoje, ao entrar lá novamente e me dar conta de que não tem nenhum doente, só pessoas como eu e você fazendo exames de rotina, foi um acalento. Fiquei imaginando quantas mães já não choraram de emoção ali dentro, vendo seus bebês pela primeira vez. Sua casa, mesmo camuflada, carrega muita emoção e me emocionou profundamente. Um beijo carinhoso e até amanhã. Escrito por Rô COMENTE: |